Como aprendi desde muito cedo, a noite tinha uma grande influência no meu humor, e não foi diferente quando tudo começou. Era noite e ainda estava em meu quarto tentando dormir, pois no outro dia haveria aula, e como de costume, meu velho pai viria me acordar. Entretanto naquela noite não sentia sono algum, e apesar disso, mesmo de olhos abertos, parecia sonhar com uma voz que cantava para mim, palavras que no início eram indecifráveis, mas que com o passar dos segundos iam preenchendo cada vez mais minha mente e minhas lembranças. Tinha apenas oito anos e minha irmã dormia no quarto ao lado, sem, com toda a certeza, escutar absolutamente nada.
- Quando em noites frias não pensares em fugir,
E quando em lugares gélidos sua alma percorrer,
quando finalmente sentires que tudo é o nada,saiba que teu nome chegará em breve,porque se tornou mais um guardião, e a ti é que as estrelas brilharão, e lua cantará...O canto silenciou logo após repetir três vezes, e meus olhos serraram-se enquanto de alguma forma parecia crescer árvores por todos os lados. Amanheceu sem que eu pudesse notar, e uma batida na porta anunciou meu “velho” me chamando para o café da manhã, e como de costume enrolei o quanto pude.
Já na aula, nunca gostei da lógica matemática, apesar de saber que iria me dar mal no final do ano, e particularmente aquele dia, eu não conseguia me concentrar em absolutamente nada, apenas na lembrança das palavras sussurradas em cantos na noite anterior. A professora saiu para pegar giz na secretaria, e eu pulei a janela debaixo de risos dos colegas, e fui me esconder numa parte do colégio onde havia uma espécie de horta.
Tudo estava na mais absoluta quietude, e apenas os pássaros cantavam. Comecei a desenhar. Tentava rabiscar qualquer coisa, e quando vi, tinha desenhado uma rosa branca, envolta de um arame farpado. Não sabia bem o motivo, apenas fiz por fazer, creio. E então olhei para os lados, as árvores não eram mais as mesmas, e não havia sinal algum de aluno, professor ou até mesmo do pavilhão escolar. Apenas uma estrada, e uma floresta mista. Uma brisa gélida, como se fosse a brisa que sempre vem quando amanhece, acariciou meu rosto, e curioso, segui a trilha com medo e olhando para todos os lados.
Não demorou muito e novamente palavras cantadas, surgiram no ar, como se as próprias árvores estivessem cantando para mim. A voz era mais clara que na noite anterior, e o timbre da voz era tão grave e tão suave ao mesmo tempo, que meu peito se acalmava enquanto ouvia. E então, do meu lado direito, vi sentado sobre um tronco caído, uma figura coberta por um sobretudo e capuz tão marrom quanto a própria terra, um arco do lado, e uma sombra no rosto.

3 comentários:
que irado lucio
mto bom
realment vc leva jeito pra escrever esse tipo d historia
heheh
e vlw pela lembraça ;D
Mágico, profundo e rápido
Texto fluido. Não poderia ser um pouco mais descritivo?... Bem, volto atrás, talvez isso enfadasse o leitor num primeiro momento. Eita! Curiosidade! kkkk
Lembrou "Crônicas de Nárnia", embora minha memória cinematográfica seja péssima!
Adorei essa descrição aqui óh:
"E então, do meu lado direito, vi sentado sobre um tronco caído, uma figura coberta por um sobretudo e capuz tão marrom quanto a própria terra, um arco do lado, e uma sombra no rosto."
Que raiva desse "tar" Peregrino, vou ter que continuar lendo uai! rs
Quel.
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