Os meses passaram, e com eles as estações do tempo. Foi chegando então Novembro, mês em que no dia sete, faço aniversário, e talvez por isso o acho tão enigmático. Faltavam algumas horas para completar anos, e com toda a certeza receberia vários e vários cumprimentos, talvez até presente pela data, e só o que me desanimava era saber que com toda certeza ouviria, já no raiar do sol, aquela frase que todos nós odiamos quando criança: “olha só, está ficando grandinho, já é quase um homenzinho com nove anos.” Entretanto ocorreu um pouco diferente do que imaginava.
Fazia calor naquela noite, como é costumeiro nessa época do ano na cidade que eu morava, e a janela estava completamente aberta. Lá fora uma leve brisa começou a soprar na véspera do dia seis para sete de Novembro, e as árvores então começaram a cochichar uma com as outras, com seu farfalhar de folhas. E mesmo dormindo, percebia nitidamente o brilho da lua cheia, que era uma das mais claras que já havia visto. A brisa deu lugar para um sopro de vento mais forte, e uma folha caiu por sobre meu rosto, não era uma folha comum, e muito menos de uma árvore próxima de onde eu residia. Ela era alaranjada e lembrava bastante a de uma macieira. Olhei em volta, e as paredes do meu quarto haviam deixado de existir, em seu lugar estavam altivas árvores de diversas espécies, misturadas desde as coníferas até mesmo as do cerrado ou savanas. Uma fraca névoa pairava ao chão, onde percebi que minha cama estava entre duas enormes raízes da árvore que provavelmente a folha pertencia. Henry estava do meu lado com um algo como um rolo de papel, não dava para ver direito o que era devido a sombra que ele projetava.
O sopro ficou um pouco mais intenso, quase uma ventania, e com ele trouxe um uivo estridente de alguma criatura da floresta, que só anos depois descobri a origem, mas me lembro de Henry apenas entregar o tal rolo que no meu colo, percebi logo que se tratava de um pergaminho, muito bem elaborado, em couro branco, e com duas hastes de prata, adornado com pedras e runas que hoje sei que é como é escrito meu nome na língua antiga da floresta. As marcas brilhavam conforme iluminada pela lua, e de alguma forma aquilo chamava bastante minha atenção.
- Esse é seu presente – disse Henry – você ainda é muito novo, mas o tempo é só mero acaso de segundos não contados, logo você virá.
Desenrolei o pergaminho, e letras muito bem definidas no couro, numa tonalidade de preto, se revelaram, eram palavras inteiras escrito numa língua inteligível naquele momento, mas que brincando de tentar achar um sentido e tentando pronunciar não havia forma em que a língua não fosse agradável aos ouvidos de quem quer que seja.
- Você precisa ir – falou impaciente, Henry – você não pertence a esse lugar ainda, guarde isso, um dia você conseguirá ler, se lembrar.
Ao final dessas palavras, o vento começou a diminuir, gradativamente, e já era possível escutar o barulho que a janela faz quando vibra e dança devido os sopros. As árvores deram espaço novamente à parede e em poucos segundos, já estava novamente em meu quarto, com o galo já cantando e meu pai vindo me acordar para ir à aula. E para mim não havia passado se quer dois minutos, porém não estava com sono ainda.
Naquele dia, ganhei uma bicicleta de presente do meu pai, e guardei o pergaminho, junto que meus desenhos e papeis. O tempo passou e me esqueci do pergaminho por alguns vários anos completos, e julgava toda aquela experiência como uma imaginação infantil dedicada a passar tempo. Até os meus quatorze anos.
Próximos posts: Pergaminho II - A grande trilha.

1 comentários:
Nossa mente, às vezes e traiçoeira, mas por menor ou maior que seja o acontecimento, uma hora ou outra vem à tona.
"Peregrino Adolescente: O Retorno" (kkkk), expectativa! Ops!... "A grande trilha". rs
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